A Vila de Patos, na Paraíba, teria sido o local da peleja entre Ignacio da Catingueira e Romano da Mãe d'Água ocorrida em 1870. Dizem que esta foi a peleja fundadora de todas as pelejas.
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quarta-feira, 25 de julho de 2007

O Calor do Tambor-de-crioula do Maranhão, vol. 3: Mestre Leonardo

Com esta postagem, encerro "O calor do Tambor-de-crioula do Maranhão".






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O Calor do Tambor-de-crioula do Maranhão, vol. 2: Mestre Felipe

Tambor de Crioula é Patrimônio do Brasil

Um cortejo com mais de três mil pessoas marcou as comemorações na noite de ontem (18 de junho), em São Luis, do registro do Tambor de Crioula no Livro das Formas de Expressão do Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. Praticada no Maranhão desde a época da escravidão, é o décimo primeiro bem cultural de natureza imaterial inscrito em um dos quatro Livros de Registro do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Já haviam sido registrados: Ofício das Paneleiras de Goiabeiras (ES), Arte Kusiwa dos Wajãpi (AP), Círio de Nazaré (PA), Samba de Roda no Recôncavo Baiano (BA), Viola-de-Cocho (MT/MS), Ofício das Baianas de Acarajé (BA), Jongo no Sudeste (RJ), Cachoeira de Iauaretê (AM), Feira de Caruaru (PE) e Frevo (PE).
Depois da reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - que se estendeu por toda tarde no terreiro mais antigo da capital maranhense, a Casa das Minas - o ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou o registro para os milhares de brincantes que tomaram as ruas do centro de São Luis com seus tambores e coreiras.
Acompanhado do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, do governador do Maranhão, Jackson Lago, da prefeita em exercício, Sandra Torres, dos representantes do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e dos brincantes, o ministro Gil seguiu a procissão que levou o padroeiro da manifestação, São Benedito – santo protetor dos negros -, de volta à sua capela, no centro da cidade. Em seguida, participou da solenidade de celebração do registro, na Casa do Tambor de Crioula.
Plano de Salvaguarda
O ministro da Cultura afirmou que o registro foi a primeira ação de um conjunto de políticas que o Governo Federal pretende implementar para a preservação do bem cultural. "Um Plano de Salvaguarda do Tambor de Crioula deverá contemplar políticas que assegurem a transmissão dos saberes, o estímulo a novos compositores e o apoio ao registro fonográfico e audiovisual", disse Gil, que também destacou a necessidade de se investir na difusão e no incentivo de pesquisas sobre a manifestação.
Em um discurso emocionado, alertou para a importância de se envolver jovens e crianças nas ações de preservação. Gil também aproveitou para mobilizar os brincantes e as três esferas governamentais (federal, estadual e municipal). "Não é o registro que vai garantir a sobrevivência do Tambor de Crioula, mas é a responsabilidade de todos nós", convocou.
O presidente do Iphan, por sua vez, explicou que o registro do Tambor de Crioula se insere numa ação de mapeamento, inventário e valorização das várias formas tradicionais do samba existentes no Brasil. "Falo da diversidade que abarca o Samba de Roda baiano, o Partido Alto e o Samba de Terreiro do Rio de Janeiro, o Samba Rural paulista e o Coco do Nordeste", disse Luiz Fernando, que lembrou da expedição folcórica empreendida pelo poeta Mário de Andrade, nos Anos 30, quando foi catalogada a manifestação maranhense.
Para o governador Jackson Lago, o registro do Tambor de Crioula foi muito importante para a consolidação cultural do estado. "O título representa para o Maranhão um momento honroso. Faz nos dar conta das nossas origens, da nossa história e da nossa força cultural", declarou.
Diversos mestres do Tambor destacaram a importância do registro para a sustentabilidade dos grupos e das comunidades. "O registro do Tambor veio para melhorar as condições do grupo e divulgar ele em todo Brasil", disse o mestre Amaral. Já o mestre Felipe, do Tambor de Crioula União de São Benedito, lembrou da função social que o Tambor exerce na vida dos jovens: "hoje temos muitas crianças carentes no grupo e o tambor tira essas crianças da marginalidade". Ele, que é um dos mestres mais antigos da região, destaca orgulho que "essa é uma dança que todo o Brasil deveria conhecer".
Neste ano celebra-se os 70 anos de existência do Iphan e de realização da expedição folclórica empreendida pelo poeta Mário de Andrade, quando foi catalogado o Tambor de Crioula do Maranhão e outras expressões populares. "Naquele momento, junto com a criação do Iphan, estavam sendo lançadas as bases de uma política de preservação que reconhece a riqueza, a dimensão, a complexidade e a diversidade do patrimônio cultural brasileiro", declarou o presidente do Iphan.
Luiz Fernando também ressaltou a importância de reconhecer a beleza, a força, o valor e a importância das pessoas que preservam a tradição do Tambor de Crioula, uma manifestação da cultura popular maranhense que envolve dança circular, canto e percussão de três tambores.
Para a prefeita Sandra Torres, a expressão cultural é um dos mais fortes exemplos da criatividade e da resistência dos descendentes de escravos no Maranhão. "A cultura é o viés mais forte para erguer a auto-estima de um povo", ressaltou.
Tambor de Crioula
Envolvendo dança circular, canto e percussão, o Tambor de Crioula tem sua origem ligada à resistência cultural dos negros e de seus descendentes. Seu reconhecimento veio se constituindo aos poucos.
No dia 6 de setembro, celebra-se a data dessa que é uma das mais belas manifestações culturais do Maranhão e que, desde o ano passado, passou a contar com o seu memorial, a Casa do Tambor de Crioula, instalada em uma antiga fábrica no centro de São Luís.
Atualmente, no Maranhão, vem sendo apropriado por grupos distintos e praticado por pessoas da classe média, estudantes, artistas e intelectuais. Existem mais de sessenta grupos de Tambor de Crioula catalogados no estado. [FONTE: Monumenta]



O Calor do Tambor-de-crioula do Maranhão, vol. 1: Mestre Chico

Inicio a postagem de "O Calor do Tambor-de-crioula do Maranhão", uma coleção de três cds e um dvd, até onde sei invendável, feita pelo governo do Maranhão. Espero que gostem.


Tambor de crioula
de Domingos Vieira Filho
Entre as danças folclóricas ocorrentes no Maranhão inclui-se o tambor de crioula como das mais populares e largamente disseminadas. O tambor de crioula é sem dúvida uma dança que nos veio no bojo da escravidão negro-africana e não tem nenhuma conotação ritual. É um simples batuque, caracterizado, do ponto de vista coreográfico, pela umbigada que entre nós tem a designação de punga. A umbigada, sabe-se, é uma constante em inúmeras outras danças de origem africana. Assim, por não ser ritual, o tambor de crioula não tem época certa para ser brincado. Nos tempos da escravidão era no Maranhão o folguedo predileto dos negros. Nos dias consagrados a São Sebastião, Santo Antônio, São Pedro, São Jorge, São Benedito, Santa Bárbara, Santa Luzia e Nossa Senhora do Rosário, ao lado do tambor de mina os negros maranhenses dançavam o seu batuque preferido, o tambor de crioula lascivo, sensual, perturbador. Mário de Andrade, em Música de feitiçaria no Brasil, incorre num lapso ao escrever: "Outro caso ainda mais idêntico ao de macumba, é existirem no Maranhãoduas formas intecorrentes de feitiçaria, intituladas tambô de mina e tambô de criôlo. A diferença básica entre ambos é a influência primordial africana que se encontra no tambor de mina, ao passo que no de crioulo os textos já são sempre em língua nacional". Essa asertiva do grande mestre paulista não procede. O tambor de crioula no Maranhão é simples dança para se divertir, sem a menor pertinência ou ligação com a religiosidade do negro maranhense e seus descendentes. Talvez a confusão tenha se originado do fato, referido por Mário de Andrade, de tanto numa como noutra ocorrência os negros usarem um trio de tambores como fundo musical, para marcar o ritmo. Se no tambor de mina os atabaques têm uma função evidentemente mágica, como em geral na chamada música de feitiçaria, pela força hipnótica que o tam-tam surdo produz, num processo emoliente da vontade perfeitamente compreensível, no tambor de crioula os tambores servem para conduzir o ritmo, afirmar a cadência, embora penetrem por igual as fibras do ser no despertar do sensualismo brabo que caracteriza essa dança, extremamente voluptuosa. O poeta maranhense Trajano Galvão de Carvalho, precursor da poesia afro-brasileira, dono de fazenda no vale do Mearim, conviveu com abundante escravaria e viu dançar muitas vezes o tambor de crioula ou de punga, talvez, quem sabe, se deliciando com os meneios febricitantes, os dengues e requebros lascivos das crioulas esbeltas, faceiras, de formas opulentas, coleando lubricamente os quadris por entre o baticum surdo, cadenciado, excitante dos tambores, sob o olhar cúpido dos sinhôs brancos. No belo poema A crioula, cantou o poeta: Ao tambor, quando saio da pinhaDas cativas, e danço gentilSou senhora, sou rainhaNão cativa — de escravos a milCom requebros a todos assombroVoam lenços, ocultam-me o ombroEntre palmas, aplausos, furor...Mas se alguém ousa dar-me uma pungaO feitor de ciúmes resmungaPega a taca, desmancha o tambor No tambor de crioula intervém como instrumental de acompanhamento três tambores, feitos de troncos escavados a fogo, geralmente de mangue-vermelho (rhizophora mangle): o tambor grande ou socador, o médio ou crivador e o pequeno, chamado pererenga ou quirerê. O do meio às vezes é denominado de meão. O tambor de crioula é dançado de forma individual, postoos dançarinos façam uma roda. Começada a função, com o bater cadenciado dos tambores, num crescendo bem sincopado, destaca-se da roda uma brincante sapateando e sariricando o corpo em requebros voluptuosos, buscando, ato contínuo, a companheira mais próxima para aplicar-lhe a punga ou umbigada, que é um gesto lascivo de prolação do abdômen, dado com o propósito de derrubar a parceira. A crioula que levou a punga entra a seu turno na dança e, ao cabo de algum tempo, repete o gesto da umbigada em outra companheira, assim ocorrendo com todas as que integram a função. Às vezes quem leva uma punga violenta é um desprevenido espectador que acompanha com interesse o movimentado batuque. Os cantos do tambor de crioula constam quase sempre de um estribilho que os brincantes remoem. Hoje, a punga clássica vai sendo aplicada, não com a prolação da barriga, mas com a das nádegas. E entre os cantos é tradicional o denominado de Beirou beira-mar. A área geográfica de ocorrência do tambor de crioula é extensa e a brincadeira persiste viva, dinâmica em mais de trinta municípios maranhenses, do litoral ao sertão. Os tocadores de tambor nessa dança sensual percutem-no com as mãos. Cavalgando os tambores, extraem do rústico instrumento notáveis combinações rítmicas. A afinação dos tambores é feita ao calor de uma fogueira de gravetos que distende a pele de revestimento das bocas. Eis por que se costuma dizer que, no Maranhão, o tambor de crioula é afinado a fogo, tocado a murro e dançando a coice. (Vieira Filho, Domingos. Folclore brasileiro: Maranhão. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Fundação Nacional de Arte, 1977, p.20-21) [FONTE: Jangada Brasil]